REUTERS/Issei Kato
Quem liga a TV para assistir a uma transmissão esportiva portuguesa pode até reconhecer os jogadores, o campeonato e as regras do jogo. Mas basta alguns minutos para ouvir palavras que parecem pertencer a outro idioma. O “time” vira “equipa”, o “goleiro” passa a ser “guarda-redes”, “gramado” se transforma em “relvado”. O técnico até pode ser chamado de “treinador”, mas não é incomum que falem da escalação feita pelo “selecionador”.
Agora mesmo, após perderem para a Espanho pelas oitavas de final, os portugueses lamentam a eliminação do “Campeonato Mundial”, e não da Copa do Mundo.
As diferenças costumam chamar atenção, principalmente, durante grandes competições internacionais, quando brasileiros acompanham jogos narrados por emissoras portuguesas ou leem notícias publicadas em Portugal. Apesar da estranheza inicial, linguistas explicam que não há nada de incomum nisso.
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Embora compartilhem a mesma língua, Brasil e Portugal desenvolveram formas próprias de falar ao longo de mais de cinco séculos. O futebol apenas torna essas diferenças mais visíveis, porque reúne um vocabulário muito presente no cotidiano de milhões de pessoas.
Segundo especialistas, as mudanças não indicam que um país fale “mais corretamente” do que o outro. Elas mostram apenas que uma mesma língua pode evoluir de maneiras diferentes conforme a história, a cultura e a sociedade de cada lugar.
A mesma língua, duas variantes
A mestre em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas pela PUC-SP e professora de Letras e tradutora-intérprete da Universidade São Judas, Cynthia Pichini, explica que brasileiros e portugueses falam variantes da mesma língua: o português brasileiro e o português europeu.
Segundo ela, desde que o idioma chegou ao Brasil durante a colonização, passou por um processo natural de transformação. Ao entrar em contato com povos originários, africanos, imigrantes e diferentes realidades culturais, a língua incorporou novos sons, palavras, construções gramaticais e formas de expressão.
Esse processo, explica a professora, acontece com qualquer idioma vivo. Assim como existem diferenças entre o inglês britânico e o americano ou entre o espanhol falado na Espanha e em diversos países da América Latina, também é esperado que Brasil e Portugal tenham desenvolvido características próprias.
As diferenças aparecem no vocabulário, na pronúncia, na gramática, na sintaxe e até nas expressões [do dia a dia].
Ela lembra que o próprio Brasil apresenta enorme diversidade linguística. Dependendo da região, uma mesma coisa pode receber nomes completamente diferentes.
Por isso, acrescenta a especialista, não faz sentido dizer que uma variante é mais correta do que a outra. Cada comunidade desenvolve formas próprias de usar a língua, adequadas ao seu contexto histórico e cultural.
Futebol é uma vitrine das diferenças
Poucos assuntos deixam essas diferenças tão evidentes quanto o futebol. Isso acontece porque o esporte faz parte da identidade cultural tanto de brasileiros quanto de portugueses, mas acabou construindo um vocabulário próprio em cada país.
Algumas dessas diferenças são conhecidas do público, enquanto outras costumam surpreender quem acompanha transmissões portuguesas.
Entre os principais exemplos estão:
Copa do Mundo × Campeonato Mundial;
time × equipa;
técnico × treinador, selecionador ou mister;
pênalti × penálti ou grande penalidade;
goleiro × guarda-redes;
driblar × fintar;
torcedor × adepto;
torcida organizada × claque;
gramado × relvado;
acréscimos × descontos;
reserva × suplente.
Neymar bate pênalti e faz o gol do Brasil na derrota para a Noruega por 2 a 1 pelas oitavas de final da Copa do Mundo, em East Rutherford, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, no dia 5 de julho de 2026
Mike Segar/Reuters
Segundo Cynthia Pichini, isso acontece porque cada sociedade incorpora o futebol à própria cultura e adapta naturalmente o vocabulário à sua realidade. Ao mesmo tempo, a circulação internacional de atletas, treinadores e jornalistas esportivos faz com que essas palavras também atravessem fronteiras e passem a ser compreendidas em ambos os países.
A professora ressalta que muitas dessas mudanças surgem espontaneamente, acompanhando a evolução da língua. Outras ganham força com a imprensa esportiva, com as transmissões televisivas e com o próprio uso cotidiano dos torcedores.
Uma língua que continua mudando dos dois lados do Atlântico
Apesar de compartilharem a mesma origem, o português brasileiro e o europeu continuam evoluindo. A professora lembra que acordos ortográficos ajudam a aproximar a escrita, mas não impedem que cada comunidade continue transformando a língua de acordo com sua realidade social e cultural.
Ao mesmo tempo, o contato entre os dois países nunca foi tão intenso. A facilidade para assistir a transmissões internacionais, o intercâmbio de jogadores, o sucesso de artistas brasileiros em Portugal e a circulação de conteúdos nas redes sociais fazem com que palavras viajem cada vez mais rapidamente.
Segundo Cynthia, alguns termos brasileiros ligados ao futebol, como “craque” e “drible”, já são amplamente compreendidos — e, em alguns contextos, utilizados — por portugueses. Ainda assim, cada país preserva expressões tradicionais como “goleiro” e “guarda-redes” ou “escanteio” e “canto”, que continuam convivendo sem conflito.
Esse movimento mostra que as variantes não caminham apenas em direções diferentes: elas também se influenciam mutuamente. A língua preserva marcas locais ao mesmo tempo em que incorpora novidades vindas de outras culturas.
Para a professora, é justamente essa capacidade de mudar que mantém o português vivo. “As diferenças enriquecem o idioma e mostram como a linguagem acompanha a história e a identidade de cada povo”, conclui.





